
Nos últimos anos, ficou comum ver mulheres tentando cuidar da saúde com pequenas ações diárias: um shot matinal ao acordar, um sachê de colágeno na água da tarde, uma cápsula de multivitamínico antes de dormir e, quando o cansaço aperta, um Super Coffee para dar conta do dia.
A intenção é boa — há uma vontade genuína de fazer algo por si mesma.
Mas muitas relatam a mesma frustração: continuam cansadas, com inchaço, sem emagrecer e com a pele sem grandes mudanças, mesmo investindo em vários produtinhos que “todo mundo diz que funciona”.
A verdade é que nenhuma dessas estratégias funciona sozinha, porque a maioria delas atua como complemento, e não como base da saúde. É como tentar colocar cobertura num bolo que ainda está cru.
Para entender de forma clara onde vale investir — e onde estamos apenas criando esperança sem resultado — organizei os mais usados em três categorias:
A creatina é um dos suplementos mais estudados para força e manutenção de massa muscular, especialmente quando associada ao treino de resistência e ingestão adequada de proteína. Em relação à cognição, porém, as evidências ainda são inconclusivas. Houve inclusive uma carta publicada na Nutrition Reviews apontando falhas estatísticas e contagem dupla que inflaram os resultados positivos em uma meta-análise sobre efeitos cognitivos (Eckert I, Pascher E. 2023;81(11):1495-1496. PubMed: 36644917).
No desempenho físico, os ganhos médios ficam na faixa de 1 a 3%, dependendo do treino e do contexto — como reforçado por um pesquisador da USP em entrevista à Folha de S. Paulo (06/2025). Ou seja: funciona, mas não é milagre. Não trata fadiga por anemia, sono ruim ou desequilíbrio hormonal.
Ao ser ingerido, o colágeno é quebrado em aminoácidos durante a digestão. Esses aminoácidos não vão diretamente para a pele: o corpo distribui conforme a necessidade — podendo ser usados em articulações, músculos ou até convertidos em energia. Ele pode contribuir, mas não é um tratamento isolado para pele ou flacidez. O que realmente sustenta a produção natural de colágeno são sono reparador, ingestão proteica adequada, antioxidantes e equilíbrio hormonal.
A maioria usa com o objetivo de ter disposição, e nesse ponto eles realmente podem ajudar — principalmente por causa da cafeína, que aumenta estado de alerta e reduz a percepção de cansaço. Mas emagrecimento significativo não acontece apenas com estimulantes. O efeito termogênico é limitado e depende de sono, alimentação e consistência de treino. Além disso, o uso frequente gera tolerância, e o excesso pode prejudicar o sono — que é justamente o que sustenta energia natural.
Embora contenha compostos antioxidantes e anti-inflamatórios, o impacto isolado do shot é irrelevante se o restante da alimentação continua pró-inflamatório (com excesso de açúcar, processados e sono inadequado). O efeito é muito mais comportamental (“começar o dia bem”) do que fisiológico.
Podem aumentar a diurese, o que gera sensação de “desinchar”. Porém, isso representa apenas perda de água e eletrólitos, não perda de gordura. O corpo não depende de chás para desintoxicar — ele possui fígado, rins e intestino para isso, e eles funcionam melhor com alimentação adequada, hidratação e sono.
A ideia de oferecer “um pouco de tudo” pode parecer inteligente, mas não corrige deficiências reais. Quem está com ferritina baixa precisa de doses terapêuticas de ferro, não de 1 mg diluído no meio de 20 vitaminas. O mesmo vale para vitamina D, magnésio, B12 e outros nutrientes. Suplementação efetiva é aquela baseada em exames e necessidade individual, não em rótulo genérico.
Rotular um produto como “zero açúcar refinado” ou “feito com mel” não o transforma automaticamente em opção leve. A densidade calórica muitas vezes é igual ou superior à de versões convencionais, e o disfarce de “saudável” favorece o consumo excessivo. A análise deve ser da composição e contexto, não do marketing.
Creatina, colágeno, shots, chás, multivitamínicos, alimentos “fit” — nenhum deles é necessariamente ruim. Mas todos eles são coadjuvantes. O que realmente determina energia, composição corporal, saúde da pele e longevidade é:
Sono de qualidade
Ingestão adequada de proteína
Preservação de massa muscular
Gestão de estresse e inflamação
Alimentação consistente, não episódica
Suplementos só fazem sentido quando entram no lugar certo da estratégia, e não como tentativa de compensar um estilo de vida desorganizado.
Bjs, Michelle Rezende